BLOG DO WALI


"O Gramático e o Dervishe"

Autor: Rumi

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Numa noite escura um dervixe passava junto a um poço seco, quando do interior do mesmo brotou um chamado de socorro. - Que será? - indagou o dervixe, olhando para o fundo do poço. - Sou um gramático e infelizmente, por desconhecer o caminho, caí neste poço profundo, em que estou agora quase imobilizado - respondeu o outro. - Aguenta firme aí, amigo. Vou buscar uma escada e corda - gritou o dervixe. - Um momento, por favor! - exclamou o gramático. - Sua gramática e pronúncia são incorretas, seria bom que as corrigisse. - Se isso é mais importante que o essencial será melhor que você permaneça onde está, até que eu tenha aprendido a falar com elegância e propriedade.

Este conto foi relatado por Jalaludin Rumi e está registrado em "Feitos dos Adeptos" de Aflaki. Editado na Inglaterra em 1965 sob o título de "Lendas dos Sufis", a presente narrativa acerca dos Mevlevis e suas supostas façanhas foi escrita no século XIV. Algumas dessas narrativas são meramente lendas sobre feitos fantasiosos, mas outras são históricas, e algumas pertencem ao estranho gênero conhecido pelos sufis como "histórias ilustrativas", quer dizer, uma série de fatos entremeados para exemplificar processos psicológicos. Por esse motivo tais contos tem sido denominados "A Arte dos Cientistas Dervixes"



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Escrito por Wali às 12h21
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"O VELHO QUE NUNCA AMOU"

Autor: Anonimo

Contam que o elevado e santo Bajezid Bistami encontrava-se falando a uma grande e atenta platéia. Todos os presentes, velhos ou jovens, estavam fascinados com suas palavras. No auge deste encantamento, quando seu discurso enlevava a todos, entrou um fumador de ópio, e com a fala algo arrastada disse: - Mestre, meu burro se perdeu. Ajuda-me a encontrá-lo. - Paciência, meu filho, eu vou achá-lo - disse-lhe Bajezid Bistami, continuando seu sermão. Após algum tempo, enquanto ainda discursava, perguntou aos presentes: - Existe alguém entre nós que nunca amou? - Eu - disse um velho levantando-se - eu nunca amei ninguém, desde minha mais remota juventude. Nunca o fogo da paixão consumiu minha alma. Para que não turvasse minha mente, nunca deixei o amor ocupar meu coração. O venerando Bajezid Bistami voltou-se então para o fumador de ópio que pouco antes o havia interrompido e lhe disse: - Vê, meu filho, acabo de achar teu burro! Pega-o e leva-o daqui.



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Escrito por Wali às 12h18
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"O Talismã"

Autor: Idries Shah

Conta-se que um faquir que queria aprender sem esforçar-se foi, depois de um tempo, descartado do círculo do Sheik Shah Gwath Shattar. Quando Shattar o estava despedindo, o faquir disse: - Você tem a reputação de poder ensinar todo o conhecimento em um abrir e fechar de olhos; sem dúvida, espera que eu fique muito tempo com você. - Ainda não aprendestes a “aprender a aprender”, mas chegarás a saber o que quero dizer - disse o sufi. O faquir simulou partir, mas voltou a entrar às escondidas na tekkia todas as noites, para poder ver o que fazia o Sheik. Não muito depois viu Shah Gwath pegar uma jóia do interior de um noz se metal gravado. Esta gema a colocava sobre a cabeça de seus discípulos dizendo: “Este é o receptáculo de meu conhecimento e não é outro que o Talismã da Iluminação”. “Então este é o segredo do poder do Sheik” - pensou o faquir. Em hora avançada da noite entrou novamente na sala de meditação e roubou o Talismã. Mas, em suas mãos, por mais que tentasse, a jóia não proporcionava nem poder, nem segredos, e ficou amargamente decepcionado. Se instalou como mestre, recrutou discípulos e tratou uma vez ou outra de iluminá-los e iluminar-se por intermédio do Talismã, mas sem nenhum resultado. Um dia estava sentado em sua sala de meditação, meditando seus problemas depois que seus discípulos tinham ido deitar, quando Shattar apareceu à sua frente. - Oh, faquir - disse Shah Gwath - sempre poderás roubar algo, mas nem sempre poderás fazê-lo funcionar. Até poderás roubar conhecimento, mas não terá nenhum valor para ti, como o ladrão que roubou a navalha do barbeiro e morreu na miséria, por não ser capaz de fazer uma só barba, cortando porém vários pescoços ao tentar. - Mas eu tenho o Talismã e tu não o tens - disse o faquir. - Sim, tu tens o Talismã, mas eu sou Shattar - disse o sufi.- Eu posso, com minha habilidade, fazer outro Talismã. Tu, com o Talismã, não te podes converter em Shattar. - Então porque viestes me torturar? - gritou o faquir. - Vim para dizer-te que se não tivestes sido de mente tão literal, tal como imaginar que ter uma coisa é o mesmo que ser capaz de ser transformado por ela, terias estado pronto para aprender a aprender. Mas o faquir pensou que o sufi só estava tratando de recuperar o Talismã, e como não estava pronto para aprender a aprender, decidiu persistir em seus experimentos com a jóia. Seus discípulos se limitaram a imitar-lhe e outro tanto fizeram seus continuadores e quem sucedeu a estes. De resto, os rituais que foram o resultado de sua experimentação desassossegada formam, na atualidade, a essência de sua religião. Ninguém poderia imaginar, depois de haver chegado a considerar santificadas suas observações, que estas têm origem nas circunstâncias que se acabam de relatar. Os decadentes anciãos , praticantes desta fé, se consideram tão veneráveis e infalíveis que estas crenças nunca morrerão.



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Escrito por Wali às 18h52
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"Como o Mal gera o Mal"

Autor: Anonimo

Um eremita caminhava por um lugar deserto quando chegou a uma gruta enorme cuja entrada não era facilmente visível. Decidiu descansar e entrou. Logo notou o brilhante reflexo da luz sobre um monte de ouro. Assim que se deu conta do que tinha visto, o eremita começou a correr, fugindo o mais depressa que pode. Acontece que havia três ladrões que passavam muito tempo naquele ponto do deserto com a intenção de roubar viajantes. Logo o homem piedoso passou por eles. Os ladrões se surpreenderam, alarmaram-se até, vendo o homem correndo sem que ninguém o perseguisse. Saíram de seu esconderijo e detiveram-no, perguntando-lhe o que estava acontecendo. - Estou fugindo do diabo, irmãos - disse. - Ele está me perseguindo. Os bandidos não conseguiram ver ninguém perseguindo o devoto. - Mostra-nos quem está atrás de ti - disseram. - Eu o farei - falou o eremita, com medo deles. Levou-os em direção à gruta, rogando-lhes que não se aproximassem dela. A essa altura, naturalmente, os ladrões estavam muito curiosos com a advertência e insistiram em ver o motivo de tanto alarme. - Aqui está a morte que me perseguia - disse o ermitão. Os malfeitores, é claro, ficaram encantados. Evidentemente consideraram o eremita meio louco e o deixaram ir, enquanto se felicitavam por sua boa sorte. Em seguida começaram a discutir sobre o que deveriam fazer com sua presa, pois tinham receio de deixar o tesouro novamente só. Decidiram por fim que um deles apanharia um pouco do ouro, iria à cidade, onde trocaria por comida e outras coisas necessárias, e depois procederiam à divisão. Um dos ladrões se apresentou voluntariamente para realizar a missão. Pensou consigo mesmo: " Quando chegar à cidade poderei comer tudo o que quiser. Depois envenenarei o resto da comida. Assim os outros dois morrerão, e o tesouro será só meu ". Na sua ausência, porém, os outros dois também tinham estado pensando. Tinham decidido que, mal o espertalhão regressasse, o matariam. Depois comeriam sua comida e dividiriam o tesouro em duas partes, em vez de três. No momento em que o pilantra chegou à gruta com as provisões, os outros dois caíram sobre ele e, a punhaladas, o mataram. A seguir comeram toda a comida, e morreram por causa do veneno que seu companheiro havia posto nela. Dessa maneira, como o eremita predissera, o ouro realmente tinha significado a morte para os que tinham deixado se influenciar por ele, e o tesouro permaneceu onde estava, na gruta, por muito tempo.



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Escrito por Wali às 18h35
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